O Homem de Tollund | Revista Bottle

O Homem de Tollund

Dos monótonos pântanos de turfa do norte da Europa, notadamente no interior da Dinamarca, de tempos em tempos emergem sinistros testemunhos de um tempo distante, a Idade do Ferro, algo entre 700 e 350 AC
Por: JohnnyMazzilli
30 de abril de 2020 • 5 minutos de leitura

Homem de Tollund, de Grauballe, de Barremose, Lindow Man. A Mulher de Elling, de Haraldskær, a Garota de Yde. Cada um destes corpos é um testemunho sombrio e silencioso que traz consigo histórias de vida e morte que ainda não puderam ser desvendadas. Empenhados cientistas se debruçam sobre estes corpos em busca de respostas que surgem fragmentadas, os primeiros retalhos da colcha do passado, mas que pouco a pouco permitem um frágil vislumbre de como se vivia e morria nos tempos em que estas pessoas eram vivas.

As planícies pantanosas da Jutlândia são formadas em grande parte pela turfa, um material de origem vegetal, parcialmente decomposto, geralmente encontrado em camadas em áreas saturadas de água. É formada principalmente por Sphagnum e Hypnum, dois tipos de musgos comuns em quase todos os continentes, e que se desenvolvem em uma enorme variedade de ecossistemas, principalmente nos mais ácidos e molhados – como os pântanos.

No passado, a turfa foi muito utilizada como combustível. Cortada dos pântanos, posta a secar e queimada em lareiras e fogões, aquecia as casas e cozinhava os alimentos.

Na tarde de 6 de Maio de 1950, após terem semeado sua lavoura, os irmãos Emil e Viggo Højgård (rôigord) foram ao Pântano Bjaeldskov, localizado a 6 km da pequena cidade de Silkeborg, para cortar um pouco de turfa para suas casas. Ao cortar o terreno esponjoso e macio, a pá de Viggo encontrou algo duro. Removida a turfa, descobriu-se o corpo de um homem, cuja face muito preservada os fez pensar em uma vítima relativamente recente de assassinato. Os irmãos chamaram a polícia, que já tinha conhecimento da descoberta de outros corpos em semelhantes condições na área, em 1927 e também em 1938. Desta vez um arqueólogo foi chamado ao local. Os irmãos haviam descoberto aquele que é considerado pelos estudiosos como o mais bem preservado corpo da Idade do Ferro, um homem que a datação de carbono informa ter vivido por volta do ano 350 AC, e que perdeu sua vida aproximadamente aos 40 anos. Ele foi batizado de Homem de Tollund, em homenagem à vila onde os irmãos viviam. Trazia em torno do pescoço um sulco profundo e uma corda de couro trançado – fora enforcado. Em sua cabeça espantosamente bem preservada, um gorro de couro em ótimas condições, forrado de lã no interior. A serenidade visível em sua face e seu excepcional estado de conservação fizeram dele uma espécie de celebridade no jet set dos corpos da turfa.

Debaixo do corpo do Homem de Tollund havia uma fina camada de uma espécie de musgo que os cientistas sabiam ter surgido na Idade do Ferro. Portanto, de imediato concluíram que ele fora depositado na turfeira há pelo menos dois mil anos. Estudos realizados em seu corpo mostraram que a cabeça e os órgãos internos encontravam-se intactos. Os cientistas estavam particularmente interessados em seu estômago e intestinos, pois queriam saber o que ele havia comido antes de morrer. Esses órgãos foram retirados e lavados, e apesar do estômago conter pouca coisa, foi encontrado em seus intestinos restos de um mingau ou sopa de legumes grosseiramente preparada, com grãos de cevada, 30 tipos de sementes entre espécies cultivadas e selvagens e várias ervas daninhas. O fato do mingau se encontrar em seu intestino grosso indica que foi consumido entre 12 e 24 horas antes de sua morte. De posse da lista de ingredientes, dois arqueólogos dinamarqueses tentaram reproduzir a sopa do Homem de Tollund, cujo sabor revelou-se intragável.

Doze anos antes, em 1938, outro corpo havia sido descoberto a apenas 80 metros de distância – a Mulher de Elling. Suas condições de preservação são muito mais precárias, mas seu cabelo e penteado estão intactos. Assim como o Homem de Tollund e quase todos os corpos encontrados nas turfeiras, a Mulher de Elling tem os cabelos avermelhados, resultado da descoloração pela acidez do meio. Em 1976, cientistas forenses dinamarqueses realizaram nela os primeiros exames detalhados. O Raio-X revelou ser o corpo de uma mulher de aproximadamente 25 anos, e assim como o Homem de Tollund, trazia ao redor do pescoço um sulco visível, e ao lado do corpo, uma corda curta de couro trançado – assim como ele, a Mulher de Elling foi morta por enforcamento.

As incomuns características físico-químicas da turfa preservam a pele e os órgãos – água altamente ácida, fria e muito pobre em oxigênio – quase anaeróbica. No entanto, os ossos são mais raramente preservados, pois a acidez da água muitas vezes dissolve o fosfato de cálcio de sua estrutura. Tais condições ao longo de séculos enegreceram os corpos, e a prolongada imersão em meio ácido arruinou por completo as possibilidades de um exame de DNA. Diversos estudos continuam sendo realizados, mas nunca foi possível fazer um teste de DNA nos corpos recuperados das turfeiras, que já vinham sendo amplamente descobertos em diferentes épocas e países, como Irlanda, Reino Unido, Holanda, Alemanha e Suécia, mas nunca tantos e tão bem preservados como na Dinamarca, que tem em seu acervo, além do Homem de Tollund, outros corpos ilustres. Já no ano de 1865, mais de 1800 corpos já haviam sido descobertos em pântanos, mas à época muitos recursos de pesquisa e preservação hoje utilizados estavam longe de existir. Parte dos corpos eram apenas fragmentos, muitos dos quais, uma vez retirados dos pântanos, rapidamente se deterioravam. Parte desse material foi catalogada, muita coisa se perdeu e poucos corpos – os mais bem preservados – tornaram-se objetos de interesse e pesquisa e ganharam alguma notoriedade.

Muitos dos corpos dos pântanos da Jutlândia mostram claros sinais de terem sido executados por enforcamento e depositados de maneira semelhante, e sua datação é parecida. Os arqueólogos acreditam que estas pessoas foram vítimas de sacrifícios humanos na época do paganismo germânico e politeísta, na Idade do Ferro, entre 700 – 300 AC.

Acreditava-se que as turfeiras eram lugares propícios para estabelecer contato com os deuses, e é bastante provável que numerosos sacrifícios humanos tenham acontecido ao redor dos pântanos. Vários indícios parecem comprovar que o Homem de Tollund teria sido vítima de um destes sacrifícios. Além de sua execução às margens do pântano, ele não foi abandonado ao ar livre ou tampouco atirado a uma vala, tratamento destinado a criminosos e inimigos, e sim cuidadosamente ajeitado no lugar onde foi enterrado. Aparentemente ele foi morto no fim do inverno ou começo da primavera, devido aos ingredientes encontrados em seu estômago e também porque os sacrifícios eram mais comumente associados à deusa da Primavera, possivelmente Ostera, no paganismo germânico.

Após longos exames, o corpo do Homem de Tollund, que havia ficado por mais de dois milênios imerso em um ambiente quase anaeróbico que impediu a sua deterioração, foi trazido de volta a um ambiente aeróbico e povoado por bactérias, e começou a se decompor. Como as partes mais preservadas são a cabeça e os pés, os cientistas decidiram se concentrar na preservação destas partes. O restante do corpo foi desidratado e permanece armazenado em uma câmara fria de um museu na capital Copenhagen. Uma réplica perfeita de seu corpo foi montada junto com as partes verdadeiras – a cabeça, a corda do enforcamento, o gorro de couro forrado e os pés, e pode ser vista no Silkeborg Museum, na pacata e agradável cidade de Silkeborg, na Península da Jutlândia.

Com menos visibilidade histórica que o preservadíssimo Homem de Tollund, é possível ver, no mesmo museu, os restos de outro personagem daqueles tempos, a Mulher de Elling, descoberta no mesmo pântano em 1938, 12 anos antes do Homem de Tollund e a apenas 60 metros de distância (abaixo).

Mulher de Elling

O Homem de Grauballe, outra obscura celebridade oriunda dos pântanos, foi descoberto em outra turfeira nas proximidades da vila de mesmo nome. Ele teve a garganta cortada no século 3 AC, e foi muito bem preservado pelas condições físico químicas da turfeira onde foi descoberto, mais ao norte na Jutlândia. Mas ao contrário da incrível serenidade facial do Homem de Tollund, que parece dormir o sono tranqüilo e eterno dos justos, a posição atormentada do corpo do Homem de Grauballe, com um enorme talho na garganta e uma marcante expressão de esgar na face, parece revelar a agonia de seus difíceis momentos finais. Sobre ele, escreveu o poeta e escritor irlandês Seamus Heaney um longo poema, que começa assim:

Como se tivesse sido derramado
Em alcatrão ele jaz
Em um travesseiro de turfa
E parece chorar
O rio negro de si próprio…

Para saber mais sobre o Homem de Tollund
Silkeborg Museum
www.silkeborgmuseum.dk
Informações sobre a Dinamarca
www.visitdenmark.com