Vasa, o infortúnio da glória | Revista Bottle

Vasa, o infortúnio da glória

No ano de 1726, a Suécia inicia à construção daquele que seria sua mais temível embarcação de guerra, o Vasa. Um navio concebido para ser ágil e com devastador poder de fogo. Tornou-se o fiasco mais retumbante da história da navegação mundial
Por: JohnnyMazzilli
30 de agosto de 2020 • 7 minutos de leitura

Dia e noite, carpinteiros, escultores, ferreiros, marinheiros, pintores e diversos outros especialistas lançaram-se ao desafio de construir aquele que seria o melhor vaso de guerra da Marinha Real Sueca. A construção levou pouco mais de dois anos e envolveu mais de 300 homens. O Vasa não seria o maior navio de guerra e nem o de canhões mais numerosos, mas poderia atirar simultaneamente com o maior número de canhões de um só lado, um importante trunfo na época. Seria também muito rápido nas manobras.

Seu aspecto original devia ser esplêndido: somente o casco consumiu mais de mil árvores de carvalho. Centenas de esculturas em torno do navio eram originalmente pintadas de dourado. A mão de obra era formada por suecos e finlandeses. O trabalho foi liderado pelo holandês Henrik Hybertsson, um experiente carpinteiro naval. Mas ele adoeceu gravemente, morreu na primavera de 1627 e não viu seu navio ser terminado. A responsabilidade recaiu sobre seu assistente, Henrik Jakobsson, já em 1626.

O navio tinha, para sua época, números superlativos: 69 metros de comprimento, 11,7 metros de largura e, da quilha ao topo do mastro, mais de 50 metros de altura. Deslocava 1210 toneladas e tinha dez velas. Seu poderoso armamento era formado por 64 canhões de bronze, e sua tripulação total seria composta por 450 homens.

Tais números vistosos escondiam, entanto, uma sinistra suspeição sobre a desproporção de suas medidas. O navio seria muito estreito e muito alto para a quantidade de canhões que levaria. Os rumores se espalharam e chegaram ao rei, que ordenou a rápida finalização do navio, sob risco de seus construtores serem postos em desgraça. Pouco antes do término da construção, mais canhões foram agregados ao navio por ordem real, agravando seu desequilíbrio.

Para um marinheiro da época, o salário era baixo e o risco muito alto. As batalhas não eram a maior ameaça. O risco de doenças contagiosas mortais era exponencialmente maior. Péssima hi

giene e má alimentação eram os maiores fatores de risco e a aglomeração de homens era extrema, com muitos dormindo diretamente no chão do convés, lado a lado e a céu aberto. A comida era ruim, mas geralmente melhor que a de casa.  Por vezes a tripulação atravessava meses sem provimentos frescos, alimentando-se de mingau, ervilhas secas e carne salgada, geralmente cozido tudo junto e com pouco ou nenhum sal. Escorbuto era comumente fatal.

A disciplina a bordo era muito rigorosa e as punições severas. Um homem que começasse uma luta poderia ser preso ao mastro com uma faça atravessada na mão. Se queixar da comida era motivo para ser banido ou encarcerado a pão e água por dias a fio. Causar um incêndio era geralmente punido atirando o responsável ao fogo. Desrespeitar o almirante rendia ser rebocado pela quilha do navio.

No domingo, 10 de agosto de 1628, o Vasa estava pronto para sua navegação inaugural, diante de um público que aguardava para celebrar a partida. Mais de uma centena de tripulantes estava a bordo, assim como mulheres e crianças. A tripulação teve permissão para levar a família e convidados ao longo da primeira parte da passagem pelo arquipélago. O que ninguém imaginava era que a viagem inaugural seria tão curta.  Depois de percorrer menos de 1.300 metros, ele balança violentamente de lado, recupera a posição e torna a balançar acentuadamente para o lado oposto. A parte inferior de sua lateral toca a água, que entra vertiginosamente pelas portinholas de canhões, todas abertas. O navio afunda rapidamente. Testemunhas divergem sobre o número de vítimas fatais, e aproximadamente 40 pessoas morrem no naufrágio. O capitão se salva, é preso e logo libertado. Ninguém é oficialmente culpado pela catástrofe. Foi assim que o Vasa iniciou um longo período de 333 anos submerso no fundo argiloso da Baía de Estocolmo.

A notícia do naufrágio chegou o rei da Suécia, que se encontrava na Prússia. O desastre tinha de ser o resultado de “loucura e incompetência”, e os culpados deveriam ser punidos, escreveu ele para o Conselho Real. A suspeitada falta de estabilidade do navio mostrara-se patente. A parte submersa do casco era muito pequena e o lastro insuficiente, diante de tão pesada plataforma de canhões. Os líderes do inquérito acreditavam que o navio tinha sido bem construído, porém, sabiam, incorretamente proporcionado. De quem era a culpa? Em parte, do vice-almirante Klas Fleming. Ele estava presente antes do navio zarpar, quando o capitão demonstrou seu temor, deslocando um grupo de homens de um lado e de outro do convés para exemplificar sua suspeita. O rei Gustav Adolf II também teve sua parcela de culpa, ao ordenar que o navio fosse aparelhado com uma quantidade inusitada de canhões de grosso calibre, extrapolando a recomendação de seus construtores. O mestre carpinteiro naval Henrik Hybertsson também era responsável, pois apesar de talentoso construtor de navios, jamais havia construído uma embarcação com dois decks de canhões. E o capitão Söfring Hansson, em última instância, por ter percebido a instabilidade e mesmo assim ter optado por navegar com as portinholas de canhão totalmente abertas, acelerando o naufrágio do Vasa. Nos dias atuais, presume-se que um inquérito apontaria o capitão como último responsável, porém não único.

Ao longo dos anos seguintes, alguns canhões foram recuperados em ousados mergulhos rudimentares. Com o tempo, os sedimentos o cobriram e teve início um longo período de quase esquecimento, e sua posição tornou-se incerta. O engenheiro e pesquisador Anders Franzén esteve em vários naufrágios célebres. Durante alguns anos, ele reuniu todas as informações e evidências possíveis e em 1956, iniciou as buscas pelos restos do Vasa. Com um dispositivo caseiro de perfuração, trouxe a superfície um naco de carvalho escurecido, encontrado abaixo do fundo argiloso da Baía de Estocolmo. Dias depois, escavando a área, deparou-se com duas linhas de portinholas – o Vasa havia sido reencontrado.

Ter permanecido por mais de três séculos submerso sem se decompor só foi possível devido às peculiares características do Mar Báltico. Suas águas salobras e as baixas temperaturas impedem que nela se desenvolvam muitos micro organismos devoradores de madeira, presentes em quase todos os oceanos. Sua ausência nas águas do Báltico impediu o desaparecimento do Vasa.

O navio jazia há 32 metros de profundidade. Mergulhadores da Marinha cortaram seis túneis através da argila sob o navio, com jatos de água especiais. Os cabos de aço foram passados pelos túneis e levados para a superfície, para puxar o navio livre da aderência do fundo. Havia grande incerteza – o Vasa suportaria o içamento? O navio veio à superfície lentamente, em 18 etapas, processo ao longo do qual ele pode ser continuamente reforçado até sua retirada completa da água. No grande dia, os suecos compareceram em peso ao local, e a cerimônia foi a primeira transmissão da TV sueca ao vivo para toda a Europa. Era o dia 24 de abril de 1961, data em que um pedaço do século 17 foi trazido de volta à atualidade.

Quando o Vasa foi posto a seco, os pesquisadores se viram diante de um monumental quebra cabeças. A madeira do navio é mais de 95% original. Não havia desenhos e projetos de época, e os restauradores trabalharam diretamente sobre os restos. Milhares de itens soltos foram recuperados, dos quais o museu conserva mais de 45 mil peças avulsas. Quando afundou, o Vasa tinha quatro velas enfunadas, e as outras seis foram encontradas cuidadosamente dobradas e armazenadas. Mesmo em mal estado, foi possível preservá-las. A menor vela, de 32 m2, feita de cânhamo, está exposta no museu.

Nos trabalhos de recuperação, foram resgatados os restos mortais de pelo menos 16 pessoas. Nenhuma das vítimas pode ser identificada. Os investigadores deram aos esqueletos nomes com iniciais A, B, C, D etc. “Adão” era um homem de 35 a 40 anos, 1,65 m e boa saúde, que em sua juventude havia recebido um severo golpe na face. Foi um dos primeiros esqueletos a ser recuperados por mergulhadores em 1958. “Filip” foi provavelmente um marinheiro de estimados 30 anos, 1,63m e um conjunto de dentes que lhe davam um sorriso especial. Sua localização na embarcação dá pistas de que talvez pudesse ter se salvado, mas preferiu permanecer em seu posto tentando salvar o navio. “Ylva” foi inicialmente identificado como um menino, mas era na verdade uma garota de 16 anos com a saúde debilitada. Seu esqueleto mostrava severa subnutrição e várias lesões. As magníficas reconstruções faciais de alguns mortos, expostas no museu, nos dá a intrigante possibilidade de ficar frente a frente com os atores desse insólito drama do século XVI.

                                                                                      Linha do Tempo

1625
O Rei Gustav Adolf II assina o contrato com o mestre carpinteiro naval Henrik Hybertsson para a construção de quatro navios. O Vasa será o primeiro
1626
A construção de Vasa começa em Skeppsgården, o estaleiro naval em Estocolmo. Começam a ser fundidos os canhões
1627
Morre o mestre carpinteiro naval Henrik Hybertsson, substituído pro seu assistente
1628
O rei Gustav Adolf visita o estaleiro para inspecionar o Vasa. No dia 10 de agosto, o Vasa afunda em sua viagem inaugural
1658
Albrecht von Treileben recebe uma autorização para resgatar o navio
1663-1665
Muitos canhões do Vasa são içados por mergulhadores, trabalhando a partir de um arcaico sino de mergulho
1840
O engenheiro naval Anton Ludwig Fahnehjelm introduz o moderno escafandro na Suécia. Os mergulhos no Vasa ganham outra dimensão
1956
Após um longo intervalo, onde diferentes propostas de resgate são rechaçadas pela marinha sueca, o navio é reencontrado e os mergulhos são retomados. O mastro é recuperado
1957
A Marinha, o Museu Marítimo Nacional e uma empresa de salvamento se unem para resgatar o Vasa
1959
Começa o lento e complexo processo de mover o Vasa rumo a superfície, em 18 etapas
1961
O Vasa vem à superfície, após 333 anos submerso. Seu interior é escavado e o navio segue para um museu provisório, o Estaleiro Vasa
1962
Tem início a conservação por saturação de PEG, – polietileno glicol, um composto químico que substitui a água na madeira submersa e evita encolhimento e rachaduras. O processo leva 17 anos
1963-1967
Mergulhadores escavam continuamente o fundo do local de repouso do Vasa e recuperam centenas de milhares de objetos
1979
Reinicia-se a pulverização com PEG por dois anos
1987-88
Tem início a construção do museu definitivo. O Vasa faz sua última viagem, do estaleiro ao novo Vasa Museet
1990
O Museu Vasa é inaugurado em 15 de Junho pelo rei Carl XVI Gustav
2000
Tempo chuvoso e grande número de visitantes levam à preocupante variação de umidade no navio, com depósitos de sais e ácidos em níveis alarmantes. Tem início um programa inovador de pesquisa, focado na preservação do Vasa, que ganha notoriedade mundial
2004
Um novo sistema climático é instalado no museu, para estabilizar a temperatura e a umidade, componentes cruciais para preservar o navio

Dicas & By Yorself

Vasa Museu
www.vasamuseet.se
Informações de Stockholm
www.visitastockholm.com
Turismo na Suécia
www.visitsweden.com