Giacomo Casanova, a insólita vida do intrépido libertino italiano | Revista Bottle

Giacomo Casanova, a insólita vida do intrépido libertino italiano

Artista, escritor, intelectual e aventureiro. Libertino, sedutor e escroque. Poucos personagens são tão controvertidos e tiveram vida tão conturbada naqueles tempos, como o célebre conquistador italiano.
Por: JohnnyMazzilli
30 de agosto de 2020 • 7 minutos de leitura

Ele começou cedo. Aos nove anos, já mantinha relacionamento íntimo com a balzaquiana Bettina Gozzi, irmã do abade encarregado de sua educação. Aos 15, já tinha certa experiência. Entregue aos cuidados da avó desde cedo – a mãe viajava constantemente pela Europa com a companhia de teatro e o pai morreu quando ele tinha oito anos, passou também parte da adolescência em Pádua, onde residiu na casa de um sacerdote enquanto estudava direito na universidade; e aprendeu filosofia, matemática, música e medicina. Nessa época, Casanova despertou para dois vícios que o celebrizaram: o jogo e as mulheres.

Sobre Bettina, seu primeiro flerte, revelou nas suas “Memórias” ter sido ela “que, pouco a pouco, acendeu no meu coração as chispas de um sentimento que depois se tornou uma paixão dominante”.

Terminados os estudos, Casanova voltou a Veneza, onde inicia carreira eclesiástica. Conhece Alivise Gasparo Malipiero – senador e proprietário do Palazzo Malipiero, que o introduziu nos melhores círculos sociais de Veneza. Rodeado de boa comida, bom vinho e boa companhia, ele acabou por se envolver sexualmente com as irmãs Savorgnan. Este encontro, segundo confessou, acabou impulsionando sua verdadeira vocação.

Pretendeu seguir a carreira religiosa e chegou a receber ordens menores, mas os escândalos que começava a protagonizar, o jogo e as mulheres, encerraram suas pretensões na igreja e resultaram em sua expulsão do seminário. Após a morte da avó, ainda frequentou outro seminário, mas suas dívidas de jogo o levaram pela primeira vez à prisão. De volta à liberdade, Casanova exerceu outras profissões, que abandonava logo depois. Foi oficial militar, jogador profissional e músico. Depois de visitar Roma, Nápoles e Constantinopla, foi brevemente jornalista, pregador e diplomata. Aplicou seus conhecimentos de medicina em um nobre veneziano, que nenhum especialista conseguia curar. O nobre se curou e o acolheu, tornando-se seu patrono. Conhecia filologia, teologia, matemática, física e música e foi violinista profissional. Adorava jogar cartas e introduziu a loteria na França. Gostava de política e frequentou a corte de Catarina II, imperatriz da Rússia. Casanova não selecionava as mulheres. Assediava nobres e plebeias, jovens e maduras, louras e morenas, bonitas e feias.

Suas memórias confirmam que ele soube harmonizar os prazeres da alcova com os da mesa. “Cultivar os prazeres dos sentidos foi (…) a suprema preocupação da minha vida. Sentindo-me nascido para o sexo diferente do meu, sempre o amei, e fiz-me amar tanto quanto me foi possível. Também amei a boa mesa com arrebatamento, e apaixonadamente todos os objetos feitos para excitar a curiosidade”.

Em Turim, conheceu as jovens Armelina e Emília. No jantar, a certa altura, começou a discorrer sobre a combinação das ostras com o champanhe. Armelina foi a primeira que sucumbiu à sua astúcia. Emília, extasiada com seu charme, deixou cair uma ostra entre os seios, e o galanteador a socorreu. Especialista na psicologia feminina, variava o menu conforme quem desejava seduzir. Garantia aguçar seu apetite sexual comendo 12 ostras no café da manhã e 12 no almoço. Também se sentia estimulado bebendo os vinhos brancos da Úmbria e de Chipre, além do moscatel grego. Extraordinário sedutor, ele era bonito, cortês e generoso. Porém, falava e falava sobre tudo: amor, medicina, política, agricultura. “Um homem inteligente pode amar como um louco, jamais como um idiota”. Toda sua vida foi pontuada por paixões fugazes.

Mario Piccini, gondoleiro em Veneza, acredita que “muito do que atribuem a ele é fantasioso, mas mesmo assim, é figura mítica, incontestável”. A veneziana Giordana Losi é guia de turismo especializada em Veneza. “É grande o interesse a e curiosidade dos viajantes de mundo todo a respeito de Casanova”, diz ela. “Muitos pedem para ir a casa onde ele viveu, em Malipiero, próximo ao Palazzo Grassi”.

A certa altura de sua vida, foi forçado a deixar Veneza, novamente devido aos escândalos. Partiu então para Parma, e em 1750 chega a Paris, onde permaneceu até 1752. Um ano depois, voltou a Veneza com o mesmo estilo de vida que o fizera partir. Já há muito sob a mira das autoridades, Casanova foi preso em julho de 1755, sob a acusação de levar uma vida dissoluta, de possuir livros proibidos e de fazer propaganda antirreligiosa. Esperavam-no cinco anos de cativeiro. Após 16 meses na prisão, planejou uma fuga com o companheiro de cela, o abade Balbi. Na madrugada de 1 de novembro de 1756, escaparam por um buraco que cavaram no teto da cela e atingiram os telhados do Palácio Ducal, de onde não conseguiram descer. Esgotados pela procura de uma saída, adormeceram no forro do telhado, mas os sinos da Basílica de São Marcos os acordaram e forçaram a procurar novamente uma saída. Acabam por entrar na Sala Quadrada do Palácio Ducal, de onde ganham o corredor. Um guarda os vê, mas pensa que são magistrados de Veneza que trabalhavam normalmente até altas horas nos processos judiciais, e abre-lhes a porta. Casanova atravessa a Piazetta numa corrida desesperada, alcança uma gôndola e se esconde sob uma antiga proteção que elas tinham naquela época, o “felze”, mais tarde proibido devido aos encontros amorosos que o esconderijo facilitava.

Conseguiu chegar a Paris, e durante 20 anos, viveu entre França, Suíça, Itália, Inglaterra e Bélgica, deixando amantes e dívidas de jogo em cada cidade. Em Berlim, no ano de 1764, Frederick II ofereceu-lhe abrigo. Casanova também viveu curtas temporadas em Riga, capital da Latvia (antiga Letônia), na cidade russa de St. Petesburgo e Varsóvia. Em toda parte, usava sua sedução e se aproveitava da embriaguez das mulheres nas festas para seduzi-las, enquanto ele mesmo, esperto, bebia quase que somente café. Desafiado para um duelo por um marido ciumento e enfurecido, e com a reputação em baixa, tornou a fugir, indo desta vez a Espanha, onde ainda pouco se falava dele. Casanova tentou então aproximar-se de nobres influentes e recuperar os luxos de antes, sem sucesso.

De volta a Veneza e a paixão pelas mulheres
Em 1774, com 49 anos, obtém autorização para voltar a Veneza. O viajante incansável tinha percorrido a Europa, sempre envolvido em grandes aventuras, sobretudo devido à sua paixão incontrolável: as mulheres. Casanova afirmava ter nascido para as mulheres e que a ocupação mais importante da sua vida era amá-las. Stan Zweig, autor do livro “Casanova: a Study in Self Portraiture” afirma que “ele queria apenas seduzi-las e entregar-se ao momento. Não havia truques escondidos na conquista, seu segredo era precisamente a sinceridade do desejo. Não fazia promessas e nem quebrava corações, não contraía dívidas de alma; suas relações eram sempre leais a seu modo, simplesmente de ordem sensual e sexual. Ele não provocava catástrofes, fez muitas mulheres felizes, que saíam intactas de uma aventura de volta para suas vidas cotidianas. Ele conquistava sem destruir, seduzia sem desmoralizar.” defende Zweig.

Casanova atribuía o seu sucesso amoroso à forma como tratava cada mulher: atenção, delicadeza e pequenos gestos eram o caminho certo da conquista. E alertava: “qualquer homem que dê a conhecer o seu amor por palavras é um idiota”. Segundo Casanova, a comunicação verbal é essencial, “mas as palavras devem ser implícitas, não proclamadas diretamente”. Na sua autobiografia, confidenciou ter dormido com 122 mulheres ao longo da vida.

Sobre Mulheres e Comidas
Casanova tinha teorias inusitadas sobre as preferências alimentares das mulheres. Segundo ele, as louras tendiam a preferir verduras frescas, frutos do mar, peixes na manteiga, aves, comidas adocicadas, cremosas e suaves e queijos não muito picantes. Bebiam vinhos brancos e champanhe.

As morenas prefeririam as hortaliças mais marcantes, ostras com limão, embutidos apimentados, risotos, carne vermelha, queijos fortes, doces recheados e chocolate. Gostam dos tintos, como Bourgogne e Bordeaux, e do champanhe.

As ruivas, de pele clara e sensível, escolhem “alimentos requintados e leves, mas seu temperamento as aproxima do fogo”. Tomam vinhos brancos secos, Côtes du Rhône e rosados.

No regresso a Veneza, soube da morte da mãe e de Bettina Gozzi. Falido, abandonou o vício do jogo. Mas ainda em 1779, se tornou amante de uma costureira e com ela passou os últimos anos na cidade, antes de ser definitivamente expulso, depois de escrever uma sátira sobre a família nobre Grimani. É, aliás, nessa obra que revela ser o patriarca Grimani o seu verdadeiro pai. A sua “Ilíada”, publicada em três volumes, não obteve sucesso nem dinheiro. Em 1785 Casanova chegou à Boêmia, na atual República Tcheca, e lá permaneceu até sua morte, em 1798. Trabalhou como bibliotecário, dedicando o restante do tempo a sua autobiografia, “História da minha vida”. Embora tenha dito que esses anos lhe foram aborrecidos e frustrantes, sem eles não teria produzido os vários volumes desta biografia que, aliás, restou incompleta. Desde a primeira edição, suas memórias revelaram-se um fascinante testemunho da época, e tornaram Casanova o mais famoso sedutor de todos os tempos.

Frasista
Casanova cunhou algumas expressões que perduraram por séculos, da qual provavelmente a mais famosa e duradoura seja: “O casamento é o túmulo do amor”. E muitas outras:

Sobre a existência
“Feliz ou infeliz, a vida é o único tesouro que o homem possui.”
“Aquele que não ama a vida não a merece”

Sobre a tristeza
“Uma das vantagens de uma grande tristeza é que nada mais parece doloroso.”

Sobre seus hábitos de libertinagem:
“Economia em prazer não é para mim”

Sobre política e sociedade
“O povo, enfim, não passa de um animal de enorme tamanho que não raciocina”.  

Refletindo ao final da vida
“Eu amei, fui amado, minha saúde era boa, eu tinha uma grande quantidade de dinheiro, eu era feliz e eu confesso isso para mim mesmo.”

Fatos pouco conhecidos da vida de Casanova

– Escrevia bem em prosa e verso, e dominava o latim, grego, francês, hebraico, espanhol e inglês

– Traduziu a Ilíada de Homero, poema épico sobre a guerra de Tróia, com mais de 15 mil versos

– Era adepto do ocultismo. Numerosos testemunhos afirmam que praticava magia e feitiçaria. Tinha uma interessante biblioteca sobre estes temas. Manteve um diário onde anotava suas magias e invocações e suas experiências com poções supostamente sedutoras. Um criado salvou o manuscrito da Inquisição, escondendo-o no forro de um casaco velho. Quase duzentos anos depois, esse diário ressurgiu e chegou as mãos de um iniciado, que o divulgou entre aficionados de sociedades ocultistas da época, tornando-o famoso

– A partir de 1774, Casanova tornou-se um espião policial a serviço de um inquisidor veneziano. Aquilo pelo qual fora perseguido e preso, se tornara sua ferramenta de trabalho: sua missão era seduzir as mulheres dos inimigos do estado e obter informações comprometedoras que os levassem a prisão. Cruel ironia do destino: ele elaborou cerca de 50 relatórios acusando nobres e banqueiros de tudo aquilo que ele não via problema nenhum em cometer

– Inventou criptogramas que utilizava na adivinhação, tendo participado da busca de tesouros ocultos

– Em 1930, duas obras suas desconhecidas foram descobertas no Castelo de Dux

Depoimentos

Giacobbe Giuliani, comerciante de Veneza, diz: “Casanova é um personagem indissociável da história de Veneza, nosso herói”.

Giordana Losi, guia de turismo veneziana:
“Nosso mais caro”.

Simone Mazzali, diretor de hotel:
“Veneza é absolutamente impregnada de Casanova. Seja onde ele tenha vivido, ele é daqui.”

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